João Delicado – SuperProfile

Quando conheci o João, em contexto de formação, percebi que tinha diante de mim um ser-humano único, especial e raro. As suas reflexões no seu blog Ver para além do olhar são de uma riqueza e profundidade que muito me têm ajudado no meu próprio desenvolvimento pessoal. Por tudo isto o João Delicado, foi a primeira pessoa que convidei para esta nova rubrica, convite este que aceitou com amabilidade.

Aqui está o resultado  de uma hora de conversa cheia de riqueza interior:

João, ready?!

Ready!  Que emoção! (risos)

Quem é, nas tuas palavras, o “João Delicado”?

Ui! Ok. (risos)

É uma pessoa que procura a inteireza e que encontra, na aventura, na criatividade e na bondade, caminhos de exploração.

Quando sentiste que era a tua missão ajudar o outro?

Eu, numa das minhas vidas passadas, fui arquiteto.

Na vida passada presente?!

Sim, desta vida, exatamente (risos)…

E sentia uma insatisfação com o trabalho que fazia, embora tivesse talento e algum sucesso no que fazia. Mas, de facto, logo aí comecei por sentir  a falta do contacto humano.

Depois estive a estudar para ser padre e aí era evidente que tudo se direcionava para ajudar as pessoas a crescer, a serem melhores, a encontrarem o equilíbrio de vida, a  encontrarem o seu máximo expoente. Ali num contexto de fé e, portanto, de espiritualidade.

Recebi imenso de tantos mestres que me deram as bases e a estrutura do que eu sou hoje. Ainda hoje estava a pensar nas horas e horas que já tive de acompanhamento espiritual, psicoterapia, coaching… somando tudo isto devo ter recebido para cima de umas centenas de horas de pessoas a oferecer a sua atenção e a sua sabedoria. Ao mesmo tempo que recebia tudo isso acho que começou o meu despertar para querer dar também conforme me vi eu próprio a dar passos em frente.

Foi assim o teu “início” portanto?

Sim… Sim.

Os meus inícios foram, também, muito através do blogue.

Poucas gente sabe – isto é quase um segredo – mas estou a celebrar 10 anos de blogue (risos).

Talvez tenha sido a primeira experiência de contacto com o outro na perspetiva de ser eu a ajudar. O que escrevia era fruto da minha própria caminhada e depois as pessoas escreviam-me, devolviam-me ecos, a dizer que encontravam muita riqueza ali e depois escreviam-me a pedir mais ajuda, ajuda mais específica.

Através desse eco, desses feedbacks, comecei a perceber que o que eu poderia proporcionar era de uma riqueza maior que eu próprio…

 Nesse percurso descobriste então, um potencial em ti que tu próprio desconhecias?

Sim… Sim, muito.

Usas uma expressão que é “a melhor versão de nós mesmos”. Nas tuas palavras o que é a nossa melhor versão?

A nossa melhor versão… Ui…(risos).

Eu definiria a melhor versão como a atitude em que a pessoa está equilibrada e acede a todos os seus melhores recursos e isso significa que a pessoa está inteira.

Da minha caminhada pessoal tenho percebido como isso me ajuda e como tem ajudado outras pessoas através do que eu também vou descobrindo.

Uma pessoa inteira é alguém que funciona com a cabeça, com o coração e com as entranhas. Três centros vitais que estão equilibrados entre si, dialogam entre si e não são estanques entre si. Pelo contrário, eles dialogam e potenciam-se uns aos outros. E só assim é que a pessoa consegue andar para a frente inteira.

É nessa situação de “melhor versão” que os talentos vem ao de cima?

É aí que os talentos estão mais acessíveis, sim.

Achas que o talento é algo que está adormecido e pode ser desperto ou algo que possa ser potenciado? Ou a junção das duas?

Pois, claramente, é as duas coisas.

Os talentos, assim como as virtudes, são aspectos da nossa realidade interior que estão cá, estão disponíveis e, ao mesmo tempo, precisam de ser potenciados. Por um lado há uma escolha; por outro há um processo.

Aliás, há duas escolhas.

Há uma escolha que é: “Eu quero usar aquele recurso”.

E há uma segunda escolha que é: “Eu quero que esse talento cresça e fique ainda mais desenvolvido”

João, falas muito em criatividade inclusivé tens um workshop de criatividade e é algo que tens explorado.

É na materialização dos sonhos que alcançamos a nossa melhor versão?

Não, a nossa melhor versão é que permite a realização dos sonhos.

Aliás, no meu workshop de criatividade eu costumo dizer que há uma diferença abissal entre imaginação e criatividade.

Os sonhos estão no campo da imaginação e, o que resgata os nossos sonhos para o campo da realidade, é a criatividade. Porque a criatividade é a intersecção entre a imaginação e a realidade.

Então é a criatividade que estabelece a ponte ou várias pontes – porque a criatividade é criativa e pode fazer o que entender (risos) – ligando a realidade e os sonhos: umas vezes para puxar a realidade na direção dos sonhos; outras vezes, para puxar os sonhos para a realidade.

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Workshop “Criatividade para tudo e para todos” | Colégio de Santa Doroteia [Lisboa], outubro 2015
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Workshop “What is Creativity?” com alunos de Mestrado da FEUP [Porto], setembro 2015

Como é que, enquanto coach ou formador, apoias a pessoa a alcançar a sua “melhor versão”?

A primeira coisa é a confiança que ponho na pessoa. Ou seja, eu acredito na pessoa independentemente do que ela faça, diga ou do estado em que ela esteja. Acredito que ela vai aproveitar o que está a fazer, vai crescer, vai ser melhor, vai dar passos para a frente.

Isso pressupõe que, antes disso tudo, haja um pressuposto que é :

“Eu acredito em mim” enquanto pessoa, coach, formador.

Eu gosto de pensar que eu só posso acreditar no outro se acredito em mim. Quanto mais eu acreditar no meu processo, no meu crescimento, na minha maturação mais eu sou capaz de canalizar essa mesma confiança para a pessoa que eu tenho à frente.

Que superpoderes para ti, são essenciais, para desenvolveres esse trabalho com os outros?

Superpoderes meus?

Sim, superpoderes teus.

Ena (risos). Ena, ena (risos). Superpoderes meus (risos).

Volto aos aspectos que referi no princípio. A Inteireza, a Criatividade e a Bondade.

Nunca tinha pensado nisso…Disse isto assim sem pensar muito (risos). 

Agora vai ficar escrito.

Isso é comprometedor! (risos)

É uma responsabilidade enorme acompanhar pessoas porque estamos a entrar num território sagrado que o outro é para nós.

Superpoderes…

Olha, eu procuro ser inteiro no tal sentido que falava, o de estar alinhado, conectado comigo próprio, e isso passa por praticar meditação, por praticar algum género de oração, por praticar a atenção, a chamada atenção plena.

Há uma pergunta que me faço constantemente.

Ainda há pouco estava na fila do supermercado. Estava uma fila enorme e eu estava à espera na fila e eu pensei para mim mesmo, fiz-me uma pergunta que faço muitas vezes a mim mesmo, que é:

“Como é que eu aqui posso crescer?”

“Estou aqui à espera. Não tenho ‘smart phone’ para estar a pôr ‘likes’ nas redes sociais”. Então opto por praticar uma coisa a que eu chamo “desanonimatização”.

Vê lá se consegues dizer!

“Desanonimatização”?

Isso mesmo! (risos)

É um termo que tive que inventar para mim próprio porque dava conta que um dos maiores flagelos da raça humana, pelo menos da vida ocidental, é a anonimatização, ou seja, pela massificação nós tornamo-nos anónimos uns aos outros.

Então a “desanonimatização” é uma forma de brincar com a palavra mas para dizer uma coisa muito séria, que é a necessidade de pormos o foco no outro. Tirarmos o filtro que possamos ter, de preconceitos, ideias feitas, preguiça mental, e fazermo-nos presentes ao outro.

Então é óbvio que eu faço isso com os anónimos, no autocarro, na fila do supermercado. E muito mais, com outra qualidade, diante de alguém que eu estou a acompanhar.

Depois a desanonimatização concretiza-se numa abertura ao mistério.

Eu acredito que o outro, assim como eu, vai estar até ao fim da vida a descobrir-se e eu vou ajudá-lo nesse processo mas, para o ajudar, eu tenho de estar completamente aberto ao que ele seja porque eu ainda não sei o que ele é. Então tenho de o ouvir primeiro, a escuta.

Então, partindo da desanonimatização, passei pela presença para chegar à escuta.

Depois, a criatividade é um tema que me apaixona e acho que é talvez das virtudes mais preciosas na nossa vida. Há tempos brincava com uns amigos e dizia que se algum dia me pudessem proclamar santo (risos), eu gostava de me tornar o santo protetor da criatividade (mais risos).

Isto vem já do que eu aprendi no âmbito do desenvolvimento pessoal.

Vens de uma área que é a arquitectura, portanto já era um recurso teu.

Pois, e depois encontrou aplicação nesta área onde levo a criatividade ao seu máximo esplendor.

Enquanto que na arquitectura era simplesmente para desenhar casas e espaços. Aqui, no âmbito do desenvolvimento pessoal, é para abrir espaços dentro da pessoa.

Abrir espaços de respiração, de reflexão, espaços para acolher sentimentos e emoções e abrir espaços para o desconhecido. E a criatividade é preciosa porque nos dá a cada momento a capacidade de reagirmos de acordo com a situação.

O que é que nos causa tensões, problemas e dificuldades? É a falta de flexibilidade.

Como nos falta essa flexibilidade, eventualmente somos surpreendidos e atropelados pelas circunstâncias. Somos surpreendidos pelos acasos da vida. Somos apanhados desprevenidos.

Com a criatividade eu acredito que ganhamos a cada momento uma confiança de fundo que é, “no matter what” eu vou ser capaz de responder ao que venha.

E depois a terceira ferramenta, o terceiro superpoder (terceiro superpower), que é a Bondade.

Não vale a pena ter os outros superpowers se este não estiver lá intrinsecamente unido a eles. É a cola.

A bondade é acreditar, é ter uma confiança plena no ser humano, na pessoa e naquela pessoa concreta que eu tenho à frente. Confiar que ela é muito melhor que ela própria pensa e melhor que o que eu consigo ver.

Estabeleço logo um foco, que me ajuda muito a lidar com a pessoa, que é acreditar que mesmo que ela não saiba, ela é melhor, é melhor ainda. Então isso ajuda-nos a avançar.

João, já és a tua melhor versão?

Essa é uma pergunta gira (risos).

Eu já sou e ainda não sou.

Tem a ver com as duas escolhas que temos a fazer. Eu acredito que já tenho tudo o que preciso, por um lado. E, por outro lado, eu tenho que continuar a escolher a cada momento ser isso… E sei que nem sempre consigo. Faz parte do processo. Tenho que acrescentar um bocadinho de paciência quanto baste para mim próprio, para continuar a crescer.

Uma das coisas que eu trago para as minhas formações é o gosto por desenhar no quadro. No workshop de auto-conhecimento eu apresento as ‘7 leis gerais da interioridade’. E uma das leis gerais da interioridade é que, nós evoluímos numa ondulação crescente. Por um lado a nossa sensibilidade faz-nos parecer que umas vezes estamos em cima e outras vezes em baixo, é assim uma oscilação quase como uma maré. Por outro lado, se nós fizermos a nossa parte, é uma ondulação crescente. Mesmo que nos sintamos em baixo numa certa fase da vida, estamos muito mais alto do que quando há uns tempos atrás nos sentíamos em baixo. E o mesmo para quando nos sentimos em cima.

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4ª Edição do Wii_Workshop de Introdução à Interioridade e Auto-Conhecimento | Oceanário [Lisboa], novembro 2015

O que acrescenta o “papel” de coach ao teu lado pessoal e à pessoa João Delicado?

Uma coisa muito gira que me acontece nas sessões de Coaching e também nos workshops, e que serve de propulsão para continuar o meu trabalho, é que me sinto melhor pessoa no final da sessão. Eu sinto que o próprio processo, em que eu estou em conexão com a pessoa, me convoca e puxa pela minha melhor versão. Ou seja, se a minha intenção de puxar pela melhor versão do outro está lá, curiosamente também puxa pela minha. Cá por dentro sinto as forças renovadas, sinto uma energia particular, sinto um positivismo, uma visão positiva das coisas. E a minha esperança é que  a pessoa vá para casa com sementes de esperança, coragem e confiança.

Que superpoderes vês nascer nas pessoas que acompanhas?

Há tempos, um rapaz trouxe-me um tema: para ele era importante mudar de casa.

E eu fiquei impressionado porque fizemos uma sessão e, no dia a seguir, ele já tinha dado passos e já tinha encontrado uma casa que era óptima.

E fiquei impressionado com a velocidade da acção pois ele já estava nessa situação há largos meses e de repente com uma sessão apenas já estava ali a dar frutos.  

Aquela casa acabou por escapar e, passado um mês, tive uma surpresa espetacular. Estava a fazer uma nova sessão de coaching num jardim onde nos encontramos e, a meio, ele diz-me:

“Olha, anda cá”.

Andámos 100 ou 200 metros e ele diz:

“Aquele segundo andar é a minha nova casa!”.

E eu fiquei super contente porque percebi o quão consequente pode ser o processo de coaching.

Por alguma razão a pessoa está bloqueada há não sei quanto tempo, anda ali a marcar passo na vida e, de repente, o facto de ter um interlocutor que lhe faz algumas perguntas inteligentes, que recorda coisas importantes que a própria pessoa mencionou, de repente dá passos em frente e liberta-se. Para mim é uma palavra muito forte esta. O ideal é que as pessoas se libertem.

João, perguntas de resposta rápida, sem pensar muito.

Um superpoder que querias ter?

Gostava de cantar. Cantar bem.

Uma intenção por detrás do trabalho que desenvolves?

Construir um mundo novo

Um sonho por concretizar?

Fazer uma pós-graduação em psicoterapia.

Uma música, frase, imagem ou actividade que te faça “voar”?

Dançar.

Grata João pela tua entrega e pelo tempo que me concedeste.

Para saberes mais sobre o João Delicado e os projetos que desenvolve:

 

 

 João Delicado SuperProfile:

Tem 38 anos. Vive em Lisboa. A sua missão é ajudar pessoas a encontrarem-se consigo e com os seus sonhos. Por isso é formador, coach e autor.

Desenvolve a sua atividade profissional em três âmbitos complementares:  como formador de desenvolvimento pessoal em palestras e workshops; como ‘life coach’ no acompanhamento individual; e como autor, na RFM, no blogue ‘Ver para Além do Olhar’, e na respetiva página Facebook; é co-autor do livro “Vale a pena pensar nisto”.

Há cerca de 15 anos que se interessa pela interioridade, em particular na relação entre a psicologia e a espiritualidade. Tem-se dedicado ao desenvolvimento pessoal, dando e recebendo formação. Tem colaborado, como formador, com várias instituições de ensino e beneficiência.

Nasceu e cresceu em Lisboa. Licenciou-se em Arquitetura e trabalhou como arquiteto. Depois esteve na formação dos jesuítas, durante a qual viveu em Coimbra, Braga, Lisboa, Porto, Roma, e fez as licenciaturas em Filosofia e em Teologia – mais alguns estudos em Comunicação. Depois, fez certificações internacionais na área da Programação Neuro-linguística, do Coaching e do Storytelling. Mas a universidade de onde tem tirado mais proveito ainda tem sido a da amizade, a do amor, a dos encontros [e des-encontros], a das conversas. Deseja muito chegar ao Céu para se dedicar a isso a tempo inteiro. Até lá, sente-se um  peregrino.

Além disso, é corredor de bairro. Faz parte de um grupo de teatro. Gosta de ‘respirar’ em horizontes amplos, junto ao rio ou junto ao mar.

 

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